HOSPITAL SOFIA FELDMAN

Como foi que começou o movimento pela casa de parto?
Kátia — Essa retomada pelo parto normal ocorreu porque os índices de cesariana estavam muito altos e os médicos começaram a se preocupar. Um médico francês chamado Michel Odent atuou numa cidade a 100 quilômetros de Paris, chamada Pithiviers. Lá, ele começou a questionar as práticas tradicionais e retirar alguns procedimentos que estavam enraizados na prática dos médicos, mas que não contribuíam em nada para a mãe e o bebê. Ele defendia que as parteiras poderiam fazer melhor que os médicos porque as parteiras são mulheres e tem uma aproximação melhor com as mulheres, têm uma outra sensibilidade. A cidade ficou famosa na década de 70 e eu acredito que foi a partir desse trabalho que o ocidente tomou mais consciência da necessidade do parto humanizado.

 

E quanto ao Rio de Janeiro, como se deu o estabelecimento da Casa de Parto aqui?
Kátia — No Rio de Janeiro, o processo começou em 1998, com uma proposta do Ministério da Saúde trazida pelo Dr. David Capistrano, que era assessor especial do ministério. No projeto da época seriam construídas casas de parto no Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Juiz de Fora. No mesmo ano foi divulgada uma portaria regulamentando a Casa de Parto, especificando a equipe mínima necessária para que ela operasse, os equipamentos que ela precisaria e como ela deveria funcionar. Desde o início, a Casa de Parto daqui do Rio (a Casa de Parto David Capistrano Filho, que fica em Realengo) começou a ser construída de forma diferente. Temos mais gente na equipe porque o pré-natal na casa de parto já começa a ser feito na 37ª semana. E no nosso caso o pré-natal é feito, desde o início, na própria Casa de Parto. Em casos de baixo risco a mulher pode se inscrever logo após a constatação da gravidez. Esse foi o nosso diferencial. Por isso nós precisamos ter duas enfermeiras de plantão por dia ao invés de uma. Queríamos que as enfermeiras da equipe estivessem também na maternidade de referência, sendo necessário no mínimo 20 enfermeiras. Elas têm 40 horas, recebem a gratificação do PSF pelas 40 horas, que são divididas entre as atividades da casa de parto e o plantão de 12 horas na maternidade de referência. Exigimos cinco anos de exercício dentro da sala de parto, e fazemos um processo de seleção no qual avaliamos se o perfil da enfermeira é compatível com a Casa, se ela não está reproduzindo os métodos tradicionais. Ela deve estar inserida em um processo de humanização e ter a mesma visão a respeito do parto que nós temos. Hoje a casa de parto já está com sete meses de funcionamento e 477 mulheres cadastradas no pré-natal, algumas das quais foram encaminhadas para os hospitais por não serem casos de baixo risco, e já fizemos 71 partos. Foi um processo que não seria possível sem o apoio de diversas instâncias, como a Prefeitura, a Secretaria de Saúde e a Sociedade Civil, representada principalmente pela REHUNA (Rede Humanização do parto e Nascimento).

 

“As enfermeiras se mostraram capazes de suprir esse hiato que existia nessa questão da humanização do parto, humanização esta que a maioria dos médicos ainda não entendeu que é algo bom”
 

Como funciona o sistema de Referência e Contra-referência entre a Casa de Parto e a Maternidade?

Kátia — A maternidade de referência é a Alexander Fleming, que fica a sete quilômetros da casa de parto, a menos de cinco minutos de ambulância. Nos casos em que é necessária a internação, a recepção tem sido muito boa. A equipe da casa de parto já entra em contato com a da maternidade e, em paralelo a isso, já temos enfermeiras da casa de parto que estão lá. Acreditamos que mantendo enfermeiras nossas na unidade de referência nós iríamos quebrar uma série de dificuldades que existem nas outras casas de parto, entre elas, o fato da mulher não conseguir entrar, mesmo sendo referenciada para a o hospital. Às vezes o médico não aceita bem porque é uma enfermeira que está referenciando. Podemos não ter resolvido todos os problemas, mas o fato de termos enfermeiras dentro da unidade de referência é um fator de aproximação muito grande, porque a equipe da Casa de Parto acaba conhecendo as entranhas dela. As coisas já acontecem de uma forma mais fácil se a equipe tem o telefone de quem está de plantão no hospital e consegue entrar em contato caso seja necessário. Hoje compreendemos que isso foi um fator decisivo para que a referência funcionasse e para que a maternidade tenha um pouco do espírito do que é a Casa de Parto. Isso não era exigido pela portaria de 1998, mas acabou fazendo a diferença no nosso caso.

 

Marcos — Também foi importante sensibilizarmos a maternidade de referência. Nós construímos os protocolos da casa de parto junto com o corpo clínico da maternidade de forma a facilitar o entendimento da continuidade da atenção, determinar onde termina a responsabilidade da casa de parto e onde começa a da maternidade. Com isso nós também queríamos evitar que as mães, caso houvesse necessidade, saíssem de um modelo mais humanizado e chegassem a um modelo mais tradicional. O chefe da Neonatologia e a chefe de Enfermagem Obstétrica da maternidade fizeram parte desse grupo que discutiu quais eram os riscos para o bebê e quando ele deveria ser encaminhado para a maternidade. Foi tudo construído em conjunto. Construir a parceria com a maternidade de referência foi de fundamental importância. Estão sendo feitas reuniões de avaliação do funcionamento da referência e da contra referência, da recepção das mulheres vindas da casa de parto. Nós achamos que essa é uma das questões fundamentais para garantir a adesão das mulheres à proposta da casa de parto. Elas precisam saber que, apesar de elas não terem acesso a cesarianas e outros procedimentos na casa de parto, elas o terão na maternidade caso seja necessário. Faz parte do processo garantir a eficácia da referência.

 

Como você avalia a eficácia do sistema?

Marcos — Quando precisamos referenciar a clientela ainda durante a gestação cria-se uma situação especial para as mulheres atendida

s nas casas de parto porque as mulheres atendidas pelas outras instituições do município têm dificuldade em conseguir referência de risco, e para a casa de parto isso ficou mais fácil porque envolve uma continuidade de assistência. A situação das mulheres da Casa, em especial durante a gestação, acaba sendo privilegiada. 
 

“A situação das mulheres da Casa, em especial durante a gestação, acaba sendo privilegiada”
 

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